Thursday, September 18, 2008

"Balada da Neve"

Este foi o primeiro poema que decorei, obrigada pela minha
avo obviamente... :)


Batem leve, levemente
Como quem chama por mim...
Será chuva? Será gente?
Gente não é certamente
E a chuva não bate assim...

É talvez a ventania;
Mas ha pouco, ha poucochinho,
Nem uma agulha bolia
Na quieta melancolia
Dos pinheiros do caminho...

Quem bate assim levemente
Com tão estranha leveza
Que mal se ouve, mal se sente?...
Não é chuva, nem é gente,
Nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caia
Do azul cinzento do ceu
Branca e leve, branca e fria...
--Ha quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!

Olho-a atravez da vidraça.
Pos tudo da cor do linho.
Passa gente e quando passa
Os passos imprime e traça
Na brancura do caminho...

Fico olhando esses sinais
Da pobre gente que avança
E noto, por entre os mais,
Os traços miniaturais
Duns pézitos de criança...

E descalcinhos, doridos...
A neve deixa inda vel-os
Primeiro bem definidos,
--Depois em sulcos compridos,
Porque não podia ergue-los!...

Que quem já é peccador
Sofra tormentos, emfim!
Mas as crianças, Senhor,
Porque lhes dais tanta dor?!...
Porque padecem assim?!...

E uma infinita tristeza
Uma funda turbação
Entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na natureza...
--E cai no meu coração.

Augusto Gil

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